sexta-feira, 10 de março de 2017

"O olhar de um pescador maratimba"

Em reverência à centenária "Festa das Canoas", um dos maiores patrimônios históricos e
culturais do nosso município, a "Memória Marataízes" publica um ensaio de autoria de
Laryssa da Silva Machado e Lucas da Silva Machado, professores de História e alunos do
Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Espírito Santo -
UFES. O trabalho foi produzido para a disciplina Memória e História Oral, ministrada
pelas professoras Maria Cristina Dadalto e Syrléa Marques Pereira.

Partindo do depoimento do seu avô, Adilson Julião da Silva, Laryssa e Lucas reconstroem
parte da história da família, tendo como pano de fundo a pesca, fio condutor da vida de
Adilson, um senhor de mais de 70 anos que acompanhou grandes transformações do
cotidiano de Marataízes. Um depoimento riquíssimo, com detalhes importantes que
ajudam a contar a história da "Praia Encantada" e os homens maratimbas, passando
também pelo pujante comércio da Barra do Itapemirim que, aliás, é destacada no texto
pelo histórico do seu porto, cuja importância para o desenvolvimento socioeconômico
da região a partir de meados do século XIX é inegável.

Um trabalho que aponta para uma Marataízes bucólica, romântica, recriando espaços e
tecidos sociais, além de mostrar a importância e a urgência do trabalho da História Oral.
As imagens ao fim do ensaio nos tornam um pouco íntimos do senhor Adilson, levando
a nossa imaginação ao "mundo do trabalho" do típico maratimba. A "Memória
Marataízes" tem a honra de publicar o presente ensaio, agradecendo aos seus autores,
e anseia que ele inspire outras pesquisas do gênero.

Apenas uma observação de ordem técnica: as eventuais deformidades relacionadas aos
padrões exigidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT, destacando de
antemão as notas de rodapé, são de total responsabilidade da "Memória Marataízes". O
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Com vocês, "O olhar de um pescador maratimba"!

ENSAIO FINAL: O OLHAR DE UM PESCADOR MARATIMBA


De quantos homens simples é feita a história? Quantas histórias de pessoas sem status social, sem escolaridade, sem grandes fortunas, permanecem sem aparecer? Até quando a história pessoal contribui para a construção da história local, nacional e mundial? Qual a verdadeira importância de homens e mulheres comuns, personagens anônimos da história? Segundo Le Goff “A ideia da história como história do homem foi substituída pela ideia da história como história dos homens em sociedade.” (1990, p.09) O presente ensaio contará um pouco da história de um desses homens, senhor Adilson Julião da Silva, pescador e testemunha de mudanças ocorridas no sul do Espírito Santo nas últimas décadas.


Este trabalho traz um traço emocional, uma vez que o entrevistado é nosso avô. Pretendemos reconstruir um pouco de nossa história familiar através deste ensaio. Vários autores escreveram as histórias de suas famílias a partir de relatos da história oral. Um destes foi Alistair Thompson, que escreveu a história de sua família, remontando não apenas os laços familiares, mas as relações estabelecidas por ela, causando inclusive, um desconforto entre ele e seus familiares, principalmente seu pai (1). Não pretendemos causar um desconforto familiar, ao contrário, queremos com este ensaio escrever nossa história familiar a partir do ponto de vista do nosso patriarca.


Nasceu na localidade de Brejo dos Patos, município de Marataízes (2), em 06 de novembro de 1941, sendo registrado, porém, no dia 14 de março de 1943 (3). Sua vida marcada por muita dificuldade. Por ser de uma família muito pobre, como a maioria das famílias da região, desde muito cedo, com oito anos, precisou trabalhar para ajudar sua família, como conta.


Quando eu era pequeno, eu fui trabalhar com meu pai em Cambaíba, estado do Rio (4), cortando cana. Quando terminou a moagem, com seis meses, viemos embora para Boa Vista, onde nós morávamos. De lá eu fui pescar na canoa de pau ruliço, a canoa era dois panos, pegar pescada. Ai meu pai resolveu vir para Marataízes, viemos. Em Marataízes eu fui quebrar concreto, que era pedra né, pra fazer concreto, e trabalhei em padaria, trabalhei de ajudante de pedreiro, depois voltei para pescar. Pescava de arrasto, chegava no verão pescava de arrasto e no inverno trabalhava na usina (5), cortando cana, capinando de enxada, roçando de foice. Ai depois fomos trabalhar pra vender esteira na Barra, no Trapiche da Barra (6). Minha mãe e meu pai faziam esteira e nós íamos vender dia de domingo. Depois disso fui trabalhar na areia de ouro, numa produção de areia de ouro, lá no Pontal, junto com meu pai. Ai depois fui pescar a barco a motor em Marataízes. Trabalhando de barco a motor, o barco tombou uma vez em alto mar, quase que nós morremos em cinco pescadores. Outra vez, passado uns tempos, o barco afundou outra vez comigo lá em alto mar, nós estávamos em três, quase morremos outra vez.  Passou disso aí nós viemos embora. Ai eu comecei a trabalhar sendo dono de arrasto, pescava de arrasto. Ai depois dessa vez eu já comecei a trabalhar pescando lagosta, pesquei lagosta muito tempo. Depois da pescaria de lagosta eu fui trabalhar comprando e vendendo, fui comprar e vender. Foi aonde eu arrumei minha vida, foi nisso aí (7).


Filho de Onório João Julião da Silva e Rosalina Amélia da Silva, conhecida como “Mulatinha”, era o quinto filho de um total de 12 irmãos, sendo que um faleceu ao nascer. Tanto seu o pai, quanto seu irmão Sebastião, se suicidaram, aquele se envenenou devido ao vício no alcoolismo e este se matou por contrair uma doença venérea. Outras duas irmãs também são falecidas, Maria da Penha, chamada de Pepenha, que morreu após contrair o vírus HIV cuidando de seu filho, que também faleceu dessa doença e Celícia, que morreu de Alzheimer. Os outros irmãos são: Celita, Celina, Catarina, Celi, Nicácio, Jaciro, Benedito. Quando seu pai faleceu, sendo ele o mais velho dos filhos homens, ficou com a responsabilidade de cuidar da família. Segundo ele, quando seu pai faleceu “deixou sete crianças pequenas, quem criou tudo foi eu [...] deixou um bebezinho de dois anos, Celi.” (8)


Tanto sua família materna quanto paterna são de Itapemirim. Interessante que, sempre ouvimos dizer, em reuniões familiares, que a família de nossa bisavó, Rosalina, tinha vindo de Portugal. Essa informação não procede, segundo ele, sendo a família de seu pai de Brejo dos Patos e de sua mãe da Vila de Itapemirim.


Casou-se com Eliza Campos da Silva, no dia 16 de junho de 1962, ambos com 19 anos de idade. Esta estava grávida de cinco meses de sua filha mais velha, Elizanda, nossa mãe. Durante um tempo moraram com dona Rosalina, pois não tinham condições financeiras de construírem uma casa. Com o passar do tempo, construíram uma pequena casa, ao lado da casa da nossa bisavó, e depois de muitos anos, em 1975, construíram outra, maior, em outro bairro. Essa casa se transformou em um sobrado, que depois virou quatro casas. Hoje o casal possui cinco casas.


Da união com Eliza nasceram Elizanda, Luizinete, Paulo César, Luzimar e Rosemere. Na entrevista dada a nós, ele diz o seguinte sobre seu casamento:


Eu casei com sua avó eu tinha dezenove anos de idade [...] Era rapaz solteiro e fazia serenata, cantava e tocava violão pra poder distrair, e aí a gente arranjou uma namorada [...] Quando nós casamos nós fomos a pé daqui [Marataízes] na Vila [do Itapemirim]. Fomos a pé, chegou lá nos casamos e de lá viemos embora de ônibus. O casamento só fazia na Vila, todo mundo casava na Vila. E pra ir não tinha dinheiro pra ir e voltar, só dava pra voltar, nós fomos a pé e voltamos de ônibus. (9)


Alguns eventos familiares marcaram a história da nossa família. Um foi o acidente envolvendo nossa mãe Elizanda, quando era criança. O outro, também um acidente, envolveu nosso pai, Luiz Carlos.


Eu pescava de arrasto [...] e com três anos de idade, nós não tínhamos luz em casa, energia, era lamparina. Ai eu sai pra pescar e sua avó dormindo, ela [Elizanda] levantou e foi brincar com a lamparina acesa e pegou fogo na roupa dela. Sua avó ao invés de correr e abafar com um pano, uma coberta, saiu correndo abraçada com ela pro lado de fora. E nisso aí foi onde o fogo pegou nela e queimou [...] Quem socorreu foi os vizinhos, eu não vi, eu estava pescando [...] Quando eu cheguei ela estava toda ruim. Aqui não tinha hospital não [...] Nós cuidamos em casa mesmo. Era o farmacêutico que tinha era Demétrios, Antonico, na Vila, e Newton. Aí quando ela ficou muito ruim mesmo, que tava quase morre-não-morre, foi que nós levamos pra Cachoeiro [do Itapemirim]. Eu conversei com Almir Melo, que era farmacêutico em Cachoeiro e ele mandou que levasse. Não tinha condução e não tinha dinheiro pra pagar condução também. Eu cheguei no hotel Maraguá, tava um cara  no Jeep e eu pedi a ele, e ele levou pra Cachoeiro. Levou ela pra Cachoeiro, a estrada de chão ruim, e pra vir embora, meu cunhado me trouxe, no carro da empresa. A vida foi difícil pra caramba [...] Ela não ficou internada não. Chegava lá o médico dava uma limpeza, passava remédio pra passar nela e trazia pra casa [...] Pra Belo Horizonte ela foi depois que já estava grandinha. Ai ela ficou internada lá umas semanas, mais ou menos, pra fazer cirurgia plástica. Ai ela já estava grande já [...] A vida é longa pra ‘cacete’. (10)


Sobre o acidente do nosso pai:


Quando eu estava com essa casa quase pronta (11), aí eu sofri um acidente, eu, meu filho e meu genro, meu genro está na cadeira de rodas até hoje, já tem 25 anos. Eu fui trabalhar no fusca do meu genro [Vanderlei, esposo de Luzinete] pra poder sobreviver. Tirei os bancos do fusca, botei as tabuas e carregava peixe do Estado do Rio pra cá. A minha vida foi assim até eu arrumar minha camionete, que eu tenho até hoje. E de lá pra cá eu comecei a melhorar, graças a Deus, ‘tô numa boa’. Não posso reclamar de mais nada da vida. Tudo o que eu já sofri, tudo o que eu já possui, e hoje eu ‘tô bem’, graças a Deus. Consegui a aposentadoria e ainda tenho dois barquinhos de pesca, e estou sobrevivendo. (12)


Interessante no depoimento de nosso avô é que, em todo momento sua profissão de pescador está presente. Direta ou indiretamente, a pesca decidiu e transformou a sua vida. Não só ele, como vários outros homens de Marataízes, mudaram suas vidas através da pesca. Na realidade, a localidade de Marataízes e a pesca estão intimamente ligados. O mar não apenas banha está cidade, mas fez com que a mesma se moldasse. Tanto no hino do município quanto nas letras dos poetas locais, o Mar de Marataízes é louvado.


Hino de Marataízes (13)
Amor
É uma praia assim
É ter alguém
Ter você para mim
E ao luar
Como é bom viver
Sempre a sonhar
Com o seu bem querer
Marataízes
Linda Praia encantada
A ti eu devo
Esta mulher amada
Marataízes
Tu és felicidade
Para quem amou
Serás sempre saudade


Marataizes Marata (14)

Nas Turcas bem cedo
Nas pedras do porto
Na praia do centro
Galera do morro
Eu aprendi a amar pai me ensinou a nadar
Mãe me dizia meu filho volte pra casa mais cedo
Cuidado com arrieiro
Brindei vários carnavais e recitei poesias
Atrás do trio dancei
O mundo é tão singular
Da Boa Vista, Cidade Nova, Lagoa D´Antas, Lagoa Funda
Pontal da Barra a Imburi
Marata terra pertenço a ti
Eu vou cantar -te nos meus sonhos
Marataízes eu te amo
Pequena terra grande berço
Marataízes tens a paz
Tens vaidades e segredos
Oh minha pérola capixaba
Faz parte de um grande sonho
Pra sempre quero te amar
Nas turcas bem cedo
Nas pedras do porto
Na praia do centro
Galera do morro
Eu aprendi a amar pai me ensinou a nadar
Mãe me dizia meu filho volte pra casa mais cedo
Cuidado com arrieiro
Brindei vários carnavais e recitei poesias
Atrás do trio dancei
Um mundo feito pra mim
Que Boa Vista, Areias Negra, Praia da Cruz, Lagoa do Siri
Lá na Colônia a lua cheia
Marataízes estou aqui
Eu vou cantar -te nos meus sonhos
Marataízes eu te amo
Pequena terra grande berço
Marataízes tens a paz
Tens vaidades e segredos
Oh minha pérola capixaba
Faz parte de um grande sonho
Pra sempre quero te amar


Aqui é o lugar que chamam de Marataízes (15)
Aqui dessa praia se tem lá do norte
Um vento bem forte que é pra amenizar
Do sul vêm imaginações
Que fazem na noite gente se soltar
De leste nasce o sol
Que limpa o olhar
Do oeste se tem as minas
Que trazem recordações gerais
Nosso coração aprende
Coisas bonitas cada vez mais
Aqui é o lugar que chamam de Marataízes
E o mar vem debruçar na areia branca
De sua praia molhada de amar 


Nacionalmente conhecida como “Pérola Capixaba”, Marataízes ganhou destaque nacional a partir da década de 1970 através do turismo. Porém, muito antes disso, boa parte dos poucos moradores da localidade, então pertencente ao município de Itapemirim (16), viviam da pesca ou das atividades comerciais ligadas ao Porto da Barra. Através das lembranças da infância do nosso avô pode-se perceber as mudanças ocorridas na região ao longo dos anos.


Marataízes não tinha nada, nada, não tinha quase casa nenhuma. Depois de ‘muita raça de tempo’, aqui era ‘mato puro’. O barco chegava de pescar e nós passávamos num beco, um ‘bequinho’ que era mato puro e um caminho, um beco, pra nós irmos pra praia. Era o caminho que tinha, não tinha essas casas todas que tem hoje não. Aquela rua (17) ali era um brejo d’água direto, desbocava ali e saía pro mar. Vinha lá do falecido João Pires. Não tinha nada pra dizer que isso aqui era uma cidade não. Isso aqui era uma ‘roça’, mato, mato, mato, puro. [...] Começou a melhorar as casas aqui foi na época que fez o primeiro condomínio, que Marataízes começou a crescer. Isso tem ‘muita raça’ de ano. Eu tinha, mais ou menos, uns 13-14 anos. Nós fazíamos esteiras e vendíamos lá na Barra, no Trapiche [...] Na Barra não tinha nada não, só tinha uns ‘casarão’ e um comércio, que era do seu Zeca Freire. O navio entrava lá no rio (18), ‘panhava’ mercadoria, ‘panhava’ feijão, arroz, milho, entendeu, esteira. O rebocador rebocava o navio e saía pro mar afora. Tinha uma porção [de navios]. Eles ficavam igual em Ubu (19), aquele monte de navios ancorados. Entrava um, carregava, o rebocador tirava ele fora e entrava o outro [...] Eram grandões. Aqui (20) não tinha barco de pesca não na época. O barco de pesca que tinha aqui era a vela, não tinha motor nenhum. Isso deve ter uns 60 anos ou mais. Nós fazíamos [esteira] em casa e dia de sábado nós levávamos pra Barra pra vender [...] Tinha o trem que vinha de Cachoeiro pra cá, não tinha condução nenhuma, não tinha ônibus, não tinha carro, não tinha nada. Aqui não tinha carro. O primeiro carro que tinha aqui foi Walter Pena que comprou, F-600. Era o único carro que tinha aqui. Agora tinha um trem, que a gente pegava mala do pessoal que vinha de Cachoeiro pra aqui, o pessoal ia começar a construir aqui. Aí eles vinham de Cachoeiro e traziam o mantimento, aqui não tinha comércio, eles traziam o mantimento. Aí nós esperávamos o trem pra pegar as coisas deles, uma ‘corriola’ de rapaz [...] [No Trapiche] funcionava os compradores de café, feijão, de milho, de arroz, comprava pra vender nos navios. Carregava pra Vitória [...] Era muita quantidade, porque era o navio que carregava, não tinha condução nenhuma. (21)


O Porto da Barra do Itapemirim, citado no depoimento, já foi o mais importante do Espírito Santo. A partir do século XIX, o Porto de Itapemirim, como era chamado por pertencer a esta Vila, ganhou destaque, escoando a produção de café. “O porto marítimo mais importante do sul da costa era o de Itapemirim (...). Deve-se observar que os exportadores remetiam o café para o Rio de Janeiro, de onde era embarcado para o exterior.” (22)

A vila do Itapemirim passou a ganhar cada vez mais destaque a partir da década de 1840, observamos este destaque dentro da província, quando a região nos anos de 1841-42 foi responsável por 11, 3% da receita no estado. Com o surto do café, a receita do sul tendia a crescer, podendo se observar em um intervalo de 25 anos um aumento de mais de 100% na receita da região, fazendo com que, no ano de 1866, Itapemirim fosse responsável por 28% da receita do estado. (23)


A receita da região manteve seu crescimento no decorrer dos anos, este fato fez com que nos anos de 1883-1884 o sul se tornasse responsável por mais da metade das arrecadações com as exportações no estado. “No que diz respeito à importância arrecadada com as exportações em geral, a dita região alcançou mais da metade do total, chegando a 53,07% na década de 1880”. (24)


A Vila do Itapemirim sempre foi grande produtora de cana-de-açúcar. No período em que o café se tornou o principal produto da economia capixaba a Vila do Itapemirim foi responsável por mais da metade das exportações do açúcar, assumindo assim, como principal produtor do gênero na Província. Consequentemente se tornou grande exportador de aguardente, efetuando 100% de todo o escoamento deste produto no ano de 1851.


Analisando os dados presentes nos Relatórios da Província do Espírito Santo, entre os anos de 1857 a 1884, percebe-se que houve um aumento gradativo nas exportações feitas na região sul pelo Porto de Itapemirim.


No ano de 1857 exportou - se 17% do café, 63% do açúcar e 98,5% de aguardente, de toda província. No ano de 1863, este foi responsável por 27% do café, 63% do açúcar e 59% da aguardente, de toda exportações da província. Nos anos de 1873 e 1883-84 o mesmo exportou respectivamente 46, 27% e 57,58% de todo café da província. (25)


Na região sul da província, em localidades como Castelo, Alegre, Muqui e Cachoeiro do Itapemirim, dentre outras, o café foi instalado obtendo grande sucesso, principalmente a partir da segunda metade do século XIX. Na Vila de Itapemirim a cafeicultura não obteve o mesmo sucesso, continuando a produção açucareira do princípio de seu povoamento. A produção do café dinamizou a região sul do Espírito Santo. A navegação a vapor pelo Rio Itapemirim tornou-se de extrema importância para seu escoamento, sofrendo melhorias significativas, possibilitando a navegação por diversas regiões litorâneas, chegando até o Porto da Barra, em Itapemirim, onde as mercadorias eram encaminhadas até o porto do Rio de Janeiro, para serem exportadas. Tal porto era o mais importante da região sul. As vias fluviais desembarcavam toneladas de sacos de café que seguiam para outras regiões. Porém, pelo porto de Itapemirim passavam muitas outras mercadorias além das citadas acima. Um número expressivo de escravos desembarcava assiduamente nas margens do rio Itapemirim para trabalharem nas lavouras de cana-de-açúcar e café.


A construção da Estrada de Ferro de Itapemirim na década de 1920 (26) fez com que a economia na região ganhasse força. Com as melhorias ocorridas na estrada de ferro os trapicheiros passam a ganhar destaque, pois os produtos exportados pela estrada eram negociados nestes terminais (27). Assim, o comércio portuário, que antes já tinha importância graças à navegação pelo rio Itapemirim vai ser dinamizado, trazendo as mercadorias, principalmente o café, que seriam exportadas nos navios cargueiros.


Além disso, como já citado no depoimento do nosso avô, os trens que vinham de Cachoeiro traziam também pessoas, inclusive aquelas que estavam construindo suas “casas de veraneio” aqui. A Barra torna-se o centro comercial da Vila do Itapemirim, já que, graças às atividades do porto os comerciantes locais vão se instalar naquela localidade. Haviam também os chamados “cargueiros” (28), que distribuíam mercadorias adquiridas no Trapiche para os comércios locais.


O lugar que a gente vendia as coisas era na Barra. Aqui (29) quase não tinha nada. [O dono do Trapiche] era Michel Mansur, chamado de coronel Michel, era o coronel daí [...] Os Soares eram os comerciantes [...] O pai daquele Lauro Freire é que era o comerciante que vendia as coisas pra gente, seu Zeca Freire. O comércio que tinha lá era o deles [...] Eles compravam a mercadoria [no Trapiche] e colocava nos armazéns. Carregava de ‘calgueiro(30) [...] Os calgueiros vendiam pros compradores. [No porto da Barra] só tinha só navio só, os barcos eram pequenininhos. [Mas tinham barcos que subiam o Rio Itapemirim]. Na época o rio era cheio, aí dava pros barcos irem. Agora não dá mais não, agora é pedra pura. (31)


Como dito, hoje o rio Itapemirim está em uma situação delicada. O desmatamento e assoreamento deste está fazendo com que o mesmo seque, por isso as pedras estão a mostra. Este rio, que era navegável de sua foz até a região das cachoeiras (32), onde as mercadorias eram embarcadas e desciam o rio até o porto. Além da navegação, hoje impossível, a seca do rio também causa um problema à população, já que são estas águas que abastecem os municípios de Marataízes e Itapemirim.


[O rio está secando] porque eles desmataram, acabaram com as matas e abriram muitas valas nas baixadas, aí foi onde secou o rio. Portanto que, com essa chuvinha que deu agora, você vai daqui pra Cachoeiro que as valas estão todas cheias e o rio está seco, porque a água pega e vai embora pelas valas. [Os brejos que tinham em Marataízes] secou tudo, eles aterraram [...] É por isso que dá essa seca brava que está aí. (33)


É interessante observar a importância dada aos problemas ambientais, já que afetam uma das principais atividades econômicas da região, que é a pesca. Hoje a atividade pesqueira em Marataízes, apesar de continuar muito importante, enfrenta os problemas causados pelos impactos ambientais, não tendo mais o mesmo vigor que tinha antigamente.


A atividade pesqueira, fundamental para o desenvolvimento de Marataízes, foi a principal fonte de renda da localidade, por muitos anos. Segundo nosso avô, pescar era a profissão mais acessível na época. “Eu tinha que pescar de arrasto [...] Era a profissão que tinha [...] Cortava cana na usina (34) no inverno e no verão pescava de arrasto.” (35) Foi a pesca que fez com que nosso avô construísse a vida, possibilitando que ele ajudasse a família da sua mãe e criasse seus filhos.


A pesca aqui, quando começou aqui, todo mundo pescava de anzol, nunca ninguém pescava de rede. Aí o falecido Eli precisava de dinheiro, me falou assim: “Adilson, eu tô precisando de um dinheiro, dois mil, você tem esses dois mil pra me arrumar, eu vou fazer um barco de pesca pra você.” Eu falei: “tá bom, vou te emprestar os dois mil.” Emprestei os dois mil a ele. Ele fez um barquinho pra mim, que era o Sagre. Aí eu não tinha como trabalhar com o Sagre porque o motor era a gasolina, entendeu, virava na frieira. Aí ele foi  na Barra e me deu um crédito pra comprar rede pra trabalhar. Eu comprei rede na Barra, preparei e comecei a pescar lagosta de rede. Era muita lagosta mesmo naquela época. Aí eu vendia pra Wilson, Wilson não aguentou, comecei a vender pra uma tal de Andreia, que tinha na Barra, aonde já era o Trapiche, onde nós carregávamos e vendíamos esteira. Isso já faz muito tempo já.  (36)


Ele, como tantos outros pescadores, fizeram suas vidas, formaram e cuidaram de suas famílias e deram aos seus filhos e netos um futuro melhor que o deles, graças à pesca. Meu avô, que não frequentou a escola na infância, pois precisava ajudar suas famílias, aprendeu a ler quando era idoso. Seus filhos, porém, frequentaram a escola e obtiveram uma outra profissão, graças aos estudos, exceto Paulo César, que também se tornou pescador. Elizanda tornou-se Técnica em Enfermagem, atualmente com mais de 30 anos de profissão. Luzinete e Rosemere se formaram professoras. Luzimar, a mais promissora, é doutora em Fisiologia Vegetal e professora da Universidade Federal de Viçosa.


Histórias simples podem sim colaborar com a história. A grandiosidade da história oral, que pode ser observada neste trabalho, é tornar as simples experiências de um pescador de Marataízes, interior do Espírito Santo, em um documento que pode ser lido e apreciado por outras pessoas. Encerrando este trabalho, nada melhor que esta frase, que resume bem a vida do nosso avô: “Não posso reclamar de mais nada da vida. Tudo o que eu já sofri, tudo o que eu já possui, e hoje eu ‘tô bem’, graças a Deus.”


Acervo Fotográfico de Adilson e Eliza


Pescaria de Arrasto. Marataízes-ES, década de 1970.
Pescaria de Arrasto. Marataízes-ES, década de 1970.


Barco de Pesca de Arrasto. Marataízes-ES, década de 1970.


Barco de Pesca de Arrasto. Marataízes-ES, década de 1970.


Reunião de pescadores. Marataízes-ES, década de 1970.
Barco Sagres durante a Festa das Canoas. Marataízes-ES, década de 1970.


Barco Marataízes. Marataízes-ES, década de 1990.



Barco Marataízes II. Marataízes-ES, década de 1990.


Barco Marataízes III. Marataízes-ES, década de 1990.


Barco As Baleias. Marataízes-ES, década de 1990.


Pesca do Mero. Marataízes-ES, década de 1990.


Pesca do Mero. Marataízes-ES, década de 1990.




Adilson Julião da Silva. Marataízes, década de 1970.




NOTAS


(1) THOMPSON, A. Quando a memória é um campo de batalha: envolvimentos pessoais e políticos com o passado do exército nacional. 1998.

(2) Neste período a localidade de Brejo dos Patos, como outras localidades citadas, Marataízes, Vila do Itapemirim, Barra do Itapemirim, Pontal e Boa Vista, faziam parte do município de Itapemirim, um dos primeiros municípios do Espírito Santo, fundado em 27 de junho de 1815. Este município “[...] abrangia todo o sul do estado do Espírito Santo até a fronteira com Minas Gerais. O município ocupa justamente a região do baixo rio Itapemirim, que com seu afluente, o rio Muqui do Norte, tem importância decisiva na vida sócio econômica da região.” (ITAPEMIRIM [Município], 2016)
(3) Costume comum na época, muitas crianças recebiam uma outra data de nascimento ao serem registradas.
(4) Município de Campos dos Goitacazes, norte do estado do Rio de Janeiro.
(5) Usina Paineiras.
(6) Barra do Itapemirim.
(7) SILVA, Adilson Julião. Depoimento, Marataízes-ES, 12 de agosto de 2016.
(8) SILVA, Adilson Julião. Depoimento, Marataízes-ES, 12 de agosto de 2016.
(9) SILVA, Adilson Julião. Depoimento, Marataízes-ES, 12 de agosto de 2016.
(10) SILVA, Adilson Julião. Depoimento, Marataízes-ES, 12 de agosto de 2016.
(11) Casa onde ele e nossa avó moram. Foi onde ele deu a entrevista.
(12) SILVA, Adilson Julião. Depoimento, Marataízes-ES, 12 de agosto de 2016.
(13) BRAGA, Newton (letra); BRAGA, Izabel Cúrcio.
(14) BABIM, David. Nesta letra o compositor cita o nome de várias praias e localidades do município de Marataízes, sendo estas: praia das Turcas, Praia do Centro, Boa Vista, Cidade Nova, Lagoa D´Antas, Lagoa Funda, Pontal da Barra, Imburi, Areias Negra, Praia da Cruz e Lagoa do Siri. Também cita o apelido que tornou Marataízes nacionalmente “Pérola Capixaba”.
(15) BAÍCO.
(16) O município foi criado em 14 de janeiro de 1992, pela Lei Nº. 4.619 e instalado em 10 de janeiro de 1997, desmembrando-se de Itapemirim. (MARATAÍZES [município], 2016)
(17) Avenida Atlântica.
(18) Rio Itapemirim.
(19) Distrito do município de Anchieta-ES.
(20) No Porto da Barra do Itapemirim, não em Marataízes.
(21) SILVA, Adilson Julião. Depoimento, Marataízes-ES, 12 de agosto de 2016.
(22) HESS, FRANCO, 2005, p. 34
(23) RELATÓRIO DA PROVINCIA DOS ESPIRITO SANTO 1852/1867
(24) QUINTÃO, 2011
(25) RELATÓRIOS DA PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO NOS ANOS DE 1857; 1863; 1864; 1873; 1883-84
(26) Relatório do Presidente da Província Bernardino de Souza Monteiro 1920.
(27) Relatório do Presidente da Província Aristeu Borges de Aguiar 1930.
(28) Cargueiros eram distribuidores comerciais que iam a cavalo ou burro, com balaios, comprando mercadorias e distribuindo nos armazéns.
(29) Marataízes
(30) Cargueiros.
(31) SILVA, Adilson Julião. Depoimento, Marataízes-ES, 12 de agosto de 2016.
(32) Cachoeiro de Itapemirim. O nome do município, inclusive faz referência a estas cachoeiras.
(33) SILVA, Adilson Julião. Depoimento, Marataízes-ES, 12 de agosto de 2016.
(34) Usina Paineiras.
(35) SILVA, Adilson Julião. Depoimento, Marataízes-ES, 12 de agosto de 2016.
(36) SILVA, Adilson Julião. Depoimento, Marataízes-ES, 12 de agosto de 2016.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA



Entrevista


SILVA, Adilson Julião. Depoimento, Marataízes-ES, 2016.


Bibliografias


BABIM, David. Marataízes Marata. Disponível em < https://www.cifraclub.com.br/david-babim/marataizes-marata/>. Acesso em 14 de agosto de 2016.


BAÍCO. Aqui é o lugar que chamam de Marataízes. Disponível em < http://novamarataizes.blogspot.com.br/2009/12/marataizes-na-voz-de-didito-e.html>. Acesso em 14 de agosto de 2016.


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2 comentários:

  1. Gostei imensamente do depoimento do Sr. Adilson. Parabéns a ele e à família por retratarem a vida dura do maratimba, que eu, veranista de Marataízes desde que nasci, só conheci o lado paradisíaco dessa praia amada.

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