terça-feira, 25 de abril de 2017

No balaio

Falamos de memórias bem vivas. Dois homens estão em seus animais de montaria. Chapéus para proteger do sol que, embora caminhando para o poente, ainda castigava os maratimbas que, certamente, estavam na lida desde muito cedo, desde antes mesmo de o sol surgir ao leste. Os balaios talvez estivessem cheios, talvez vazios. Deviam ter vendido tudo ou, então, estavam levando algum peixe para casa, para dar de comer aos seus.


Os homens passavam ao lado da antiga Igreja de Nossa Senhora da Penha, igrejinha dos anos vinte que seria mutilada nos oitenta. Talvez tenham pedido a benção dos céus. Era uma jornada que estava se encerrando. Vão para casa, descansar ou, quem sabe, ainda encontrar ânimo para remendar a rede, ajeitar um apetrecho aqui, outro ali. O hoje já foi e "amanhã tinha mais".

Ah, o balaio também pode carregar a saudade.

Foto compartilhada por Fábio Pirajá no grupo "Memória Capixaba".

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Cartão de visita

A Praia Principal (ou Central) sempre foi o nosso principal cartão de visita para quem chega a Marataízes. Isso desde antes da supremacia do transporte rodoviário, a partir da década de cinquenta do último século, e a ligação da BR à nossa praia pela Safra x Marataízes. Os turistas que vinham de trem partindo de Cachoeiro passavam por Campo Acima, Vila e Barra antes de chegar ao "Largo da Estação" (aqui vai uma sugestão para batizar aquele local), no centro do principal balneário do sul do Estado. Dali caminhavam alguns metros e pronto: a "encantada" com suas areias brancas e finas e seu mar geralmente tranquilo.

As fotos que ilustram o post de hoje mostram certamente a visão que muitos visitantes tiveram por anos e anos ao chegar a Marataízes. É fácil imaginar a euforia de quem se deparava com esse cenário.

Estamos no fim dos anos setenta. A praia dividia com Guarapari a predileção sobretudo dos mineiros da Zona da Mata (Juiz de Fora, Ubá, Leopoldina, Cataguases, Muriaé, Miraí...). Famílias inteiras se programavam durante o ano para uma temporada que poderia durar meses. Quem não podia se dar a esse luxo, aproveitava feriados como o da Semana Santa e enfrentava algumas horas de estrada passando por Eugenópolis, Itaperuna, Bom Jesus do Norte, Apiacá (ou Santo Eduardo, se preferissem a estrada pelo estado do Rio de Janeiro), até chegar à 101.


Na Safra, o coração acelerava. Está chegando! A cana compunha a paisagem, mas os vidros dos carros vinham abertos (até porque falamos de um tempo em que o ar-condicionado nos carros talvez não existisse nem na imaginação daqueles que adoravam exercitar a "futurologia") para sentir a brisa que, muitos garantem, mesmo no alto da Graúna, trazia o cheiro do mar. De repente, os primeiros postes. É o sinal de civilização. Pescoços esticados procuram o mar. E ele surge. Alegria!


As imagens foram feitas em frente ao antigo "Chalé 70". Em direção à praça central, vemos uma pista dupla e o calçamento aparentemente recém-feito. Ao fundo, o edifício Carone sendo construído. A Igreja Matriz também se destaca, assim como o icônico Praia Hotel.

Os registros foram compartilhados na rede por Fabiano Marvila Moreira.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Elegância

A pose para ser retratado. Chapéus, ternos, postura altiva, o olhar quase sempre fixo no retratista. Uma aglomeração em frente à estação da Barra do Itapemirim, localizada na esquina das atuais avenida Simão Soares e rua Dr. Jaime Santos Neves. Não se sabe se chegavam, se partiam ou se apenas estavam por ali para observar o movimento das pessoas e cargas vindas de Cachoeiro e da região do Caparaó.

Anos quarenta do último século e o boom rodoviário ainda não havia engolido as ferrovias. Boa parte da produção cruzava o sul capixaba nos vagões e a cabotagem conferia intensidade ao porto da Barra que, embora precário em infraestrutura - um problema crônico que o acompanhou desde o início da navegação a vapor pelo Itapemirim, em fins do século XIX - ditava os rumos da economia microrregional. A elegância flagrante na imagem traz uma possível Belle Époque aos moldes locais, fruto desse vigor nas atividades portuárias.


O registro compõe o acervo da Família Soares, administrado por Ivilisi Soares de Azevedo. Esteve recentemente em exposição na antiga sede da Associação Cristã Beneficente - ACB, na Barra do Itapemirim.